***Era um dia agradável, levantei cedo e precisei ir ao centro resolver uns assuntos pessoais, não sou o tipo de pessoa que gosta dessas atividades, mas as vezes é preciso. Fui até a estação e peguei o trem em direção ao centro, não era uma atividade rotineira de todos os dias, mas era frequente, então já era meio automático. Como de habito o trem estava lotado, amarrotado de gente que mal podia se mexer, o metrô que veio depois estava ainda pior, porém precisava enfrentar. Eu não sou alguém que anda na rua prestando atenção na expressão das pessoas, nunca fui, mas talvez desse dia em diante eu tenha me tornado esse tipo de pessoa. Fiquei observando aquele mar de gente ir e vir, e me flagrei notando as expressões de forma que eu nunca tinha feito antes. Juro que quase sai correndo e gritando de tão assustada que aquilo me deixou, mas não o fiz, não tinha motivos para fazer papel de louca, sendo que aquelas cenas já deviam ser diárias e ninguém entenderia meu pânico. No rosto das pessoa haviam expressões, mas expressões vazias, conversas vazias, sorrisos vazios, Nessas horas você se arrepende de poder olhar nos olhos de alguém, questiona o costume de observar a alma, afinal é isso que dizem sobre os olhos né, são as janelas da alma, e que janelas bonitas, mas com uma visão frágil, e turva. Aquelas almas estavam tão vazias que chegavam a lembrar olhos de robôs, sempre fitando o vazio, olhando para lugar nenhum, era assustador, os movimentos automáticos, o andar arrastado, eram robôs. Continuei meu trajeto.
***Aquele dia me parecia um dia diferente, não pelo que vi no trem e na estação, até porque sempre vi pessoas nesses lugares, mas sim por eu ter notado naquele momento oque sempre esteve claro, bem ali na minha frente. Fiquei pensando naquilo o dia todo e notando que as pessoas no centro, indo para seus cursos, para o trabalho ou pra Deus sabe la onde, também tinham a mesma expressão de vazio imenso. Fiquei me perguntando como aquilo tinha acontecido, quando as pessoas tinham se tornado tão frias, quando as almas secaram. Andei meio reclusa por um tempo, sai muito pouco de casa, se contar a época que ia da escola direto pra casa, sem passeios fora disso, mais de um ano trancafiada, em meu próprio mundo. Não via as pessoas, a nãos ser aquelas de todos os dias. Depois que terminei a escola passei a sair menos ainda, praticamente totalmente isolada. Talvez tenha sido nesse momento que as pessoas se tornaram robôs, e perderam toda a vida dentro de si. Tentei me concentrar nas minhas atividades, sem muito sucesso, pois ainda estava impressionada com aquilo. Será que eu também tinha me tornado um robô? Será que minha alma ainda tinha centelhas de vida?
***Terminei oque tinha que fazer, e voltei pra casa. Por sorte terminei cedo, e quando voltei não era horário de rush, peguei o trem e fui sentada, aproveitei a sorte para colocar os fones e ligar uma música. O tempo estava feio, e algumas gotas de chuva já caiam das nuvens negras que enfeitavam o céu. A tal ponto já tinha quase me esquecido totalmente do meu pânico de mais cedo e já nem pensava mais nisso. Mas o dia tinha sido diferente, e no final eu tava com vontade de chorar, não era bem uma vontade, parecia mais uma necessidade, extravasar, chorar por mim e pelas almas que eu vi mais cedo. quando o trem começou a andar e saiu da estação coberta a chuva era forte e batia na janela com um som agradável aos meus ouvidos, mesmo com os fones podia ouvir os ruídos.
***Sempre fui o tipo de garota que se prendia a coisas banais, tipo o barulho da chuva, uma torneira pingando, a frequência dos carros nas ruas, as nuvens, mas naquele dia foram as gostas de chuva escorrendo na janela que prenderam minha atenção. As gotinhas da chuva que se prenderam na janela pareciam apostar corrida para ver quem chegaria primeiro ao destino inevitável que era o fim da janela. Era engraçado, e encantador, a paisagem passando atras da chuva e aquelas gostas totalmente alheias a tudo só querendo ver quem chegaria primeiro ao fim. A paisagem ali eu já conhecia, não passava de algumas ruínas de fábricas muito antigas, nada mais interessante que a disputa que ocorria ali naquela janela. Elas pareciam não se cansar nunca, e [es]corriam incansavelmente. Não estava prestando muita atenção na música que tocava, não absorvi nenhuma letra, só as batidas, os ritmos. Ma a certa hora as gotas se cansaram e começaram a dançar, pelo menos era isso que parecia aos meus olhos, dançavam e dançavam, escorrendo sem rumo, porém com um destino, pelo vidro. Elas pareciam adivinhar (ou ouvir) a música que estava tocando em meus fones e acompanhavam cada ritmo, era lindo. Elas dançaram Beatles, Rolling Stones, Kelly Clarkson, Zeca Baleiro. E terminaram o espetáculo com Engenheiros do Hawaii. A necessidade de chover junto com a chuva ainda me invadia, mas eu estava sendo forte, até aquele momento pelo menos, quando ouvi a voz do Humberto cantando Vida Real e olhei para aquela água toda dançando ao som de Engenheiro, não pude me controlar e só pude notar oque acontecia quando minha visão foi ficando embaçada e um fluido quente e salgado chegou aos meus lábios, só então notei que chorava um choro silencioso. Quando parecia que eu estava viajando sem destino trem parou, e as dançarinas pararam junto, como se estivessem se despedindo de mim. Eu desci do trem com um misto de alegria e dor eu estava quase me enlouquecendo.
***Antes de tudo acabar definitivamente me peguei cantando: "Ah! Vida Real, como é que eu troco de canal."
by: Bruna Marques ♥

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